Copie o código abaixo e cole em seu site ou blog: <p><b>Tomás Chiaverini: A festa é infinita e vai muito além das drogas</b><br/>Chegou às lojas em abril o livro "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves", escrito pelo jornalista Tomás Chiaverini, que antes de iniciar o projeto ainda não havia ido a uma rave.<br/><BR/><br/><BR/>Tomás iniciou sua pesquisa em janeiro de 2008 e durante todo o processo - que incluiu diversas entrevistas, leituras e idas à raves - manteve no ar o blog <A href="http://www.antesdaestante.wordpress.com/" target=_blank/>www.antesdaestante.wordpress.com</A/>, no qual falava sobre o andamento de sua obra.<br/><BR/><br/><BR/>Uma resenha sobre o livro pode ser lida no Território da Música (link no final da matéria). Abaixo você confere uma entrevista com o autor, que fala sobre as críticas que sofreu, as polêmicas, o blog e as drogas.<br/><BR/><br/><BR/><br/><BR/><B/>Porque escolher o jornalismo literário para retratar o mundo das raves?<br/><BR/></B/><br/><BR/><B/>Tomás Chiaverini:</B/> Já usei o jornalismo literário no meu primeiro livro (Cama de Cimento- Uma reportagem sobre o povo das ruas, Ediouro/2007), e acho que é o que faz mais sentido no jornalismo em formato de livro, porque torna a leitura muito fluida e agradável. Por se ater a aspectos mais humanos dos personagens e por trazer histórias curiosas, contadas de um jeito instigante, o jornalismo literário permite que o livro seja atraente também para quem não se interesse particularmente pelo assunto tratado.<br/><BR/><br/><BR/>E as raves são um prato cheio para esse tipo de narrativa, que usa técnicas de ficção para falar da realidade. O resultado é um texto que permite ao leitor, mesmo aquele que nem sabe do que se trata uma rave, mergulhar nesse universo, sentir-se o mais próximo possível de uma realidade cheia de emoções e sensações. Quem se arriscar a ler, vai se embrenhar em pistas de dança lotada, vai viajar num ônibus no meio de 40 malucos até o interior de Goiás, vai acampar no cerrado, e vai passar o ano-novo numa praia deserta, ouvindo música eletrônica em meio a dez mil pessoas vindas do mundo inteiro.<br/><BR/><br/><BR/><B/>Você nunca havia freqüentado raves antes de iniciar suas pesquisas. Houve algum tipo de estranheza, algo como "eu não pertenço a esse lugar" ou "o que eu estou fazendo aqui"?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> No começo houve sim. Mas acabei usando isso no texto. O leitor que nunca teve contato com uma rave também vai ter esse estranhamento inicial e, assim como o repórter/narrador, vai aos poucos se acostumando e se tornando mais íntimo desse universo.<br/><BR/><br/><BR/><B/>O que mais te chamou a atenção durante o levantamento dos dados? Alguma pessoa, situação, festa específica?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Acho que os personagens mais inusitados e interessantes são os integrantes do grupo Fuck For Forest. O trabalho deles, basicamente, é fazer sexo para ajudar a preservar a natureza. Além de filmar e fotografar suas performances, que depois são colocadas num site por meio do qual arrecadam dinheiro, eles estão o tempo todo buscando novos parceiros pra incluir nas filmagens.<br/><BR/><br/><BR/>Eu passei um bom tempo com eles durante o Universo Paralello, e essa interação foi muito divertida. Cheguei até a traduzir simultaneamente um texto de introdução durante o show de sexo explícito que eles fizeram no festival. Foi a coisa mais estranha que já fiz na vida. E, claro, está tudo no livro. <br/><BR/><br/><BR/><B/>Você manteve um blog enquanto escrevia "Festa Infinita". A idéia foi sua? Os comentários e a interação com os internautas fizeram você mudar os rumos do que estava escrevendo em algum momento?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> O blog "Antes da Estante", que ainda está no ar, foi idéia minha mesmo. Uma idéia que surgiu por conta de um lado muito complicado de escrever um livro que é a falta de feedback. O autor está o tempo todo sozinho, ruminando as histórias e o texto, então chegou uma hora que senti necessidade de ouvir a opinião de outras pessoas. Dividir minhas angustias, mesmo.<br/><BR/><br/><BR/>Não sei dizer ao certo se mudei algo no texto por conta de comentários no blog. Mas às vezes eu estava na dúvida sobre algum fator específico e colocava no ar essa dúvida. Nesses casos os palpites ajudaram sim. Além disso, foi uma espécie de terapia durante a apuração. <br/><BR/><br/><BR/><B/>Li, em algum lugar, que pessoas consideraram o subtítulo do livro - O Entorpecente Mundo das Raves - como uma crítica sua à questão das drogas. Me parece que 'entorpecente' fala de vários excessos nas raves: muitas pessoas, muitos dias, muitas batidas, muitas coisas pouco convencionais. É a fuga da realidade, do cotidiano, o que mais entorpece nas raves?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Exato, você está certa. Acho que fui um pouco mal entendido com esse "entorpecente". Me acusaram de ser sensacionalista, e apelativo, mas na verdade não é nada disso. A intenção não foi essa. Acho que, como você notou, esse entorpecimento vai muito além das drogas. Claro que se refere a elas também, mas abarca a música, a decoração fluorescente, o afastamento radical do resto do mundo e assim por diante. <br/><BR/><br/><BR/><B/>Algumas pessoas se ofenderam com o texto final do livro. Você esperava reações desse tipo?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Infelizmente, esperava sim. Porque tem muita gente que encara o universo das raves quase como uma religião. E quando um leigo resolve descrever esse mundo tão amado por alguns é natural que certas pessoas sintam que a religião delas está sendo conspurcada.<br/><BR/><br/><BR/>A única coisa que me incomodou um pouco nisso tudo, é que muitos desses aficionados pelo mundo raver, criticaram o livro duramente sem nem sequer terem lido. Basearam-se no prefácio, em resenhas de livrarias e em textos de outros que também não leram, para falar mal e, com a rapidez da internet, isso se disseminou muito. <br/><BR/><br/><BR/><B/>A jornalista Milene Sodré, que você cita na passagem sobre o grupo Fuck for Forest, escreveu um texto criticando seu livro, você leu essa crítica?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Pois então, levei um susto com todo o ódio que Milene voltou contra mim. Eu li a critica dela e tive que responder, porque era muito descabida. Só pra você ter uma idéia ela nem se deu ao trabalho de ler o livro inteiro, antes de fazer acusações extremamente sérias contra mim. Ela me acusa de usar um diálogo dela sem autorização. Eu realmente fiz isso, mas, justamente por não ter autorização, não mencionei o nome dela no livro. <br/><BR/><br/><BR/><B/>Entre outras coisas, ela diz que você teve uma visão superficial sobre a música eletrônica e sobre as raves e que distorceu informações que colheu "sorrateiramente". O que você tem a dizer sobre isso?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Como disse, foram muitas críticas descabidas e fico triste de ter que perder tempo respondendo a elas novamente, enquanto poderíamos falar de coisas mais interessantes. De qualquer forma eu fiquei um ano inteiro me dedicando exclusivamente à apuração do Festa Infinita, então não creio que o resultado tenha sido superficial. Não há nenhum documento jornalístico sobre raves no Brasil mais profundo do que o Festa Infinita.<br/><BR/><br/><BR/>Quanto à distorção, só posso dizer que tenho o máximo cuidado na apuração, volto às fontes diversas vezes, gravo a maior parte das entrevistas, e quando não gravo, anoto. Alguma distorção sempre acontece no jornalismo, porque temos que passar pelo filtro da nossa própria cabeça antes de atingir o leitor. Além disso, claro que erros podem acontecer, mas não foi esse o caso apontado por ela. Até o momento ninguém apontou nenhum erro no livro, que precise ser corrigido numa próxima edição.<br/><BR/><br/><BR/>Quanto ao ser "sorrateiro", eu só posso dizer que me apresentei como repórter a todas as pessoas que me concederam entrevistas e todos que tiveram o nome registrado no livro sabiam que isso aconteceria. Há que se dizer, contudo, que o fato de ser "sorrateiro" pode até ser uma qualidade no jornalismo. Algumas das maiores reportagens da história foram feitas por repórteres disfarçados, usando câmeras ocultas e colhendo informações de maneira incógnita. Eu fiz isso no meu primeiro livro, quando me disfarcei de desabrigado para ser recolhido a um albergue da prefeitura. Mas, no caso do Festa Infinita, não senti necessidade de usar desses artifícios.<br/><BR/><br/><BR/>Na verdade, acho que tudo isso se deve ao fato de que ela ficou magoada porque falei que o inglês dela era abrasileirado demais. Mas não fiz isso com o intuito de humilhá-la nem nada, apenas na intenção de ajudar o leitor a imaginar a cena com mais detalhes.<br/><BR/><br/><BR/><B/>É possível ser isento ou tomar o devido distanciamento quando se passa por situações como as que você passou, incluindo o fato de experimentar ecstasy?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Acredito que sim. Não seria se o livro todo fosse baseado em várias viagens alucinógenas. Mas eu usei ecstasy uma vez, e essa experiência está descrita num contexto em que várias outras informações tratam de manter o máximo de isenção possível. Creio que se eu falasse apenas dos danos à saúde, da violência gerada pelo tráfico e das questões legais, estaria sendo muito menos isento do que fui ao mostrar que há, sim, um lado muito prazeroso na droga.<br/><BR/><br/><BR/><B/>Nessa parte do livro, aliás, você introduz alguns parágrafos bastante didáticos sobre a história do ecstasy e sobre as drogas em geral. É o único momento em toda a obra que você usa esse 'estilo'. Essa escolha é uma maneira de tornar sério um assunto que, mal interpretado, poderia parecer apologia à droga?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Essa é realmente uma das partes mais didáticas do livro, apesar de não ter ficado chato, espero. Acho que foi um pouco pra fugir da apologia sim. Mas também pra criar um contraponto da narrativa maluca que é a experiência com o ecstasy em si, e para não deixar nada em aberto. Quer dizer, você, leitor, vai numa rave, vai querer tomar um ecstasy então é o seguinte: você pode ter uma viagem fantástica, mas seu corpo estará sofrendo com hipertermia, desidratação, desequilíbrio de neurotransmissores e etc.<br/><BR/><br/><BR/><B/>Você teve receio de ser criticado por apologia ou simpatia à droga por essa experiência ou pelos relatos de maneira geral?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> É muito fácil distorcer o que está escrito, ou interpretar um texto de forma errada. Então tive, sim, um pouco de receio. Mas tive receio por várias outras coisas também. Escrever um livro envolve uma responsabilidade muito grande, porque a durabilidade dessas informações é maior do que em qualquer outro meio. <br/><BR/><br/><BR/><B/>Hoje, você freqüentaria uma rave com a intenção de se divertir? O que é diversão para você?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Pra você ver como é fácil distorcer as coisas. Na primeira entrevista que dei sobre o livro, fizeram uma pergunta parecida. Eu disse que minhas baladas, em geral, eram em bares com abundância de amigos e cervejas. E não é que apareceu um cara dizendo que eu era alcoólatra num fórum de discussão?<br/><BR/><br/><BR/>Eu fui a algumas raves para a divulgação do livro, nenhuma apenas para curtir, não. Mas gostaria de voltar, numa outra situação, a um festival como Universo Paralello ou Trancendence. <br/><BR/><br/><BR/><B/>A música eletrônica e o mundo das raves são os mesmos para você depois de todas essas experiências?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> Eu nem sabia exatamente do que se travam essas tal de raves...<br/><BR/><br/><BR/><B/>Já tem alguma idéia para escrever um próximo livro ou ainda é cedo para pensar nisso? Escreveria novamente sobre algum tema ligado à música?<br/><BR/><br/><BR/>Tomás:</B/> O próximo livro, se tudo der certo, vai ser um romance, uma ficção longa na qual venho trabalhando já há muito tempo. Ainda não tive idéia para um próximo livro-reportagem, mas poderia facilmente ser sobre algo ligado à música. <br/><br/><i>(Fonte: <a href="http://territorio.terra.com.br/canalpop/entrevistas/?c=771" target="_blank">Canal Pop</a>)</i></p>  Este conteúdo está licenciado sob uma Licença Creative Commons.
Tomás Chiaverini: A festa é infinita e vai muito além das drogas
Lizandra Pronin
Redação TDM
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Chegou às lojas em abril o livro “Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves”, escrito pelo jornalista Tomás Chiaverini, que antes de iniciar o projeto ainda não havia ido a uma rave.
Tomás iniciou sua pesquisa em janeiro de 2008 e durante todo o processo - que incluiu diversas entrevistas, leituras e idas à raves - manteve no ar o blog www.antesdaestante.wordpress.com, no qual falava sobre o andamento de sua obra.
Uma resenha sobre o livro pode ser lida no Território da Música (link no final da matéria). Abaixo você confere uma entrevista com o autor, que fala sobre as críticas que sofreu, as polêmicas, o blog e as drogas.
Porque escolher o jornalismo literário para retratar o mundo das raves?
Tomás Chiaverini: Já usei o jornalismo literário no meu primeiro livro (Cama de Cimento- Uma reportagem sobre o povo das ruas, Ediouro/2007), e acho que é o que faz mais sentido no jornalismo em formato de livro, porque torna a leitura muito fluida e agradável. Por se ater a aspectos mais humanos dos personagens e por trazer histórias curiosas, contadas de um jeito instigante, o jornalismo literário permite que o livro seja atraente também para quem não se interesse particularmente pelo assunto tratado.
E as raves são um prato cheio para esse tipo de narrativa, que usa técnicas de ficção para falar da realidade. O resultado é um texto que permite ao leitor, mesmo aquele que nem sabe do que se trata uma rave, mergulhar nesse universo, sentir-se o mais próximo possível de uma realidade cheia de emoções e sensações. Quem se arriscar a ler, vai se embrenhar em pistas de dança lotada, vai viajar num ônibus no meio de 40 malucos até o interior de Goiás, vai acampar no cerrado, e vai passar o ano-novo numa praia deserta, ouvindo música eletrônica em meio a dez mil pessoas vindas do mundo inteiro.
Você nunca havia freqüentado raves antes de iniciar suas pesquisas. Houve algum tipo de estranheza, algo como “eu não pertenço a esse lugar” ou “o que eu estou fazendo aqui“?
Tomás: No começo houve sim. Mas acabei usando isso no texto. O leitor que nunca teve contato com uma rave também vai ter esse estranhamento inicial e, assim como o repórter/narrador, vai aos poucos se acostumando e se tornando mais íntimo desse universo.
O que mais te chamou a atenção durante o levantamento dos dados? Alguma pessoa, situação, festa específica?
Tomás: Acho que os personagens mais inusitados e interessantes são os integrantes do grupo Fuck For Forest. O trabalho deles, basicamente, é fazer sexo para ajudar a preservar a natureza. Além de filmar e fotografar suas performances, que depois são colocadas num site por meio do qual arrecadam dinheiro, eles estão o tempo todo buscando novos parceiros pra incluir nas filmagens.
Eu passei um bom tempo com eles durante o Universo Paralello, e essa interação foi muito divertida. Cheguei até a traduzir simultaneamente um texto de introdução durante o show de sexo explícito que eles fizeram no festival. Foi a coisa mais estranha que já fiz na vida. E, claro, está tudo no livro.
Você manteve um blog enquanto escrevia “Festa Infinita”. A idéia foi sua? Os comentários e a interação com os internautas fizeram você mudar os rumos do que estava escrevendo em algum momento?
Tomás: O blog “Antes da Estante”, que ainda está no ar, foi idéia minha mesmo. Uma idéia que surgiu por conta de um lado muito complicado de escrever um livro que é a falta de feedback. O autor está o tempo todo sozinho, ruminando as histórias e o texto, então chegou uma hora que senti necessidade de ouvir a opinião de outras pessoas. Dividir minhas angustias, mesmo.
Não sei dizer ao certo se mudei algo no texto por conta de comentários no blog. Mas às vezes eu estava na dúvida sobre algum fator específico e colocava no ar essa dúvida. Nesses casos os palpites ajudaram sim. Além disso, foi uma espécie de terapia durante a apuração.
Li, em algum lugar, que pessoas consideraram o subtítulo do livro - O Entorpecente Mundo das Raves - como uma crítica sua à questão das drogas. Me parece que ‘entorpecente’ fala de vários excessos nas raves: muitas pessoas, muitos dias, muitas batidas, muitas coisas pouco convencionais. É a fuga da realidade, do cotidiano, o que mais entorpece nas raves?
Tomás: Exato, você está certa. Acho que fui um pouco mal entendido com esse “entorpecente”. Me acusaram de ser sensacionalista, e apelativo, mas na verdade não é nada disso. A intenção não foi essa. Acho que, como você notou, esse entorpecimento vai muito além das drogas. Claro que se refere a elas também, mas abarca a música, a decoração fluorescente, o afastamento radical do resto do mundo e assim por diante.
Algumas pessoas se ofenderam com o texto final do livro. Você esperava reações desse tipo?
Tomás: Infelizmente, esperava sim. Porque tem muita gente que encara o universo das raves quase como uma religião. E quando um leigo resolve descrever esse mundo tão amado por alguns é natural que certas pessoas sintam que a religião delas está sendo conspurcada.
A única coisa que me incomodou um pouco nisso tudo, é que muitos desses aficionados pelo mundo raver, criticaram o livro duramente sem nem sequer terem lido. Basearam-se no prefácio, em resenhas de livrarias e em textos de outros que também não leram, para falar mal e, com a rapidez da internet, isso se disseminou muito.
A jornalista Milene Sodré, que você cita na passagem sobre o grupo Fuck for Forest, escreveu um texto criticando seu livro, você leu essa crítica?
Tomás: Pois então, levei um susto com todo o ódio que Milene voltou contra mim. Eu li a critica dela e tive que responder, porque era muito descabida. Só pra você ter uma idéia ela nem se deu ao trabalho de ler o livro inteiro, antes de fazer acusações extremamente sérias contra mim. Ela me acusa de usar um diálogo dela sem autorização. Eu realmente fiz isso, mas, justamente por não ter autorização, não mencionei o nome dela no livro.
Entre outras coisas, ela diz que você teve uma visão superficial sobre a música eletrônica e sobre as raves e que distorceu informações que colheu “sorrateiramente”. O que você tem a dizer sobre isso?
Tomás: Como disse, foram muitas críticas descabidas e fico triste de ter que perder tempo respondendo a elas novamente, enquanto poderíamos falar de coisas mais interessantes. De qualquer forma eu fiquei um ano inteiro me dedicando exclusivamente à apuração do Festa Infinita, então não creio que o resultado tenha sido superficial. Não há nenhum documento jornalístico sobre raves no Brasil mais profundo do que o Festa Infinita.
Quanto à distorção, só posso dizer que tenho o máximo cuidado na apuração, volto às fontes diversas vezes, gravo a maior parte das entrevistas, e quando não gravo, anoto. Alguma distorção sempre acontece no jornalismo, porque temos que passar pelo filtro da nossa própria cabeça antes de atingir o leitor. Além disso, claro que erros podem acontecer, mas não foi esse o caso apontado por ela. Até o momento ninguém apontou nenhum erro no livro, que precise ser corrigido numa próxima edição.
Quanto ao ser “sorrateiro”, eu só posso dizer que me apresentei como repórter a todas as pessoas que me concederam entrevistas e todos que tiveram o nome registrado no livro sabiam que isso aconteceria. Há que se dizer, contudo, que o fato de ser “sorrateiro” pode até ser uma qualidade no jornalismo. Algumas das maiores reportagens da história foram feitas por repórteres disfarçados, usando câmeras ocultas e colhendo informações de maneira incógnita. Eu fiz isso no meu primeiro livro, quando me disfarcei de desabrigado para ser recolhido a um albergue da prefeitura. Mas, no caso do Festa Infinita, não senti necessidade de usar desses artifícios.
Na verdade, acho que tudo isso se deve ao fato de que ela ficou magoada porque falei que o inglês dela era abrasileirado demais. Mas não fiz isso com o intuito de humilhá-la nem nada, apenas na intenção de ajudar o leitor a imaginar a cena com mais detalhes.
É possível ser isento ou tomar o devido distanciamento quando se passa por situações como as que você passou, incluindo o fato de experimentar ecstasy?
Tomás: Acredito que sim. Não seria se o livro todo fosse baseado em várias viagens alucinógenas. Mas eu usei ecstasy uma vez, e essa experiência está descrita num contexto em que várias outras informações tratam de manter o máximo de isenção possível. Creio que se eu falasse apenas dos danos à saúde, da violência gerada pelo tráfico e das questões legais, estaria sendo muito menos isento do que fui ao mostrar que há, sim, um lado muito prazeroso na droga.
Nessa parte do livro, aliás, você introduz alguns parágrafos bastante didáticos sobre a história do ecstasy e sobre as drogas em geral. É o único momento em toda a obra que você usa esse ‘estilo’. Essa escolha é uma maneira de tornar sério um assunto que, mal interpretado, poderia parecer apologia à droga?
Tomás: Essa é realmente uma das partes mais didáticas do livro, apesar de não ter ficado chato, espero. Acho que foi um pouco pra fugir da apologia sim. Mas também pra criar um contraponto da narrativa maluca que é a experiência com o ecstasy em si, e para não deixar nada em aberto. Quer dizer, você, leitor, vai numa rave, vai querer tomar um ecstasy então é o seguinte: você pode ter uma viagem fantástica, mas seu corpo estará sofrendo com hipertermia, desidratação, desequilíbrio de neurotransmissores e etc.
Você teve receio de ser criticado por apologia ou simpatia à droga por essa experiência ou pelos relatos de maneira geral?
Tomás: É muito fácil distorcer o que está escrito, ou interpretar um texto de forma errada. Então tive, sim, um pouco de receio. Mas tive receio por várias outras coisas também. Escrever um livro envolve uma responsabilidade muito grande, porque a durabilidade dessas informações é maior do que em qualquer outro meio.
Hoje, você freqüentaria uma rave com a intenção de se divertir? O que é diversão para você?
Tomás: Pra você ver como é fácil distorcer as coisas. Na primeira entrevista que dei sobre o livro, fizeram uma pergunta parecida. Eu disse que minhas baladas, em geral, eram em bares com abundância de amigos e cervejas. E não é que apareceu um cara dizendo que eu era alcoólatra num fórum de discussão?
Eu fui a algumas raves para a divulgação do livro, nenhuma apenas para curtir, não. Mas gostaria de voltar, numa outra situação, a um festival como Universo Paralello ou Trancendence.
A música eletrônica e o mundo das raves são os mesmos para você depois de todas essas experiências?
Tomás: Eu nem sabia exatamente do que se travam essas tal de raves...
Já tem alguma idéia para escrever um próximo livro ou ainda é cedo para pensar nisso? Escreveria novamente sobre algum tema ligado à música?
Tomás: O próximo livro, se tudo der certo, vai ser um romance, uma ficção longa na qual venho trabalhando já há muito tempo. Ainda não tive idéia para um próximo livro-reportagem, mas poderia facilmente ser sobre algo ligado à música.
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